22/05, SEX– 20h
Local: Teatro Universitário da Ufes
Av. Fernando Ferrari, 514 – Goiabeiras, Vitória
SOBRE O ESPETÁCULO
Começada em 1903 e concluída no outono de 1904, a Sinfonia n.º 6, de Gustav Mahler (1860-1911) foi estreada em 27 de maio de 1906, em Essen, sob a regência do próprio compositor. Mahler compôs esta obra em uma fase tranquila de sua vida, mas a Sinfonia número 6 em lá menor, às vezes chamada de Trágica, não reflete um dos momentos mais felizes de sua vida. São quatro movimentos de estrutura clássica:
I. Allegro energico: A música começa tragicamente, em lá menor e termina iluminada e triunfante, em lá maior. Após o início aterrorizante, segue-se uma marcha implacável rumo ao inevitável, uma batalha que o herói sente perdida, mas que não pode evitar. Repassando os episódios da vida, tal herói relembra momentos e surge um tema terno nas cordas, o tema da sua esposa Alma. A certeza da batalha iminente corta tais lembranças trazendo de volta a angústia. Os episódios assim se alternam, ora trazendo lembranças de um amor vivido, ora alegrias e vitórias, com a sofreguidão da luta que nos leva ao desfecho final, desfecho este que está sempre tão presente e tão forte na obra de Mahler: a morte. Em outro momento, são ouvidos cincerros, dando um caráter pastoral à cena, numa atmosfera cheia de magia, o sonho. Porém, a aflição que domina o movimento (e toda a obra) retorna, deixando-nos clara a intenção do compositor em nos colocar em contato com sua luta inglória.
II. Scherzo: Ecoando a fúria do primeiro movimento, aqui sentimos o escárnio da vida diante de nossos esforços. Temos que lembrar que, sob a ótica do autor, não importa o quanto tentemos, a tragédia sempre se abaterá sobre nós. Apesar da doçura e lirismo do episódio central, somos surpreendidos pelas brutais propostas sonoras que o movimento ainda traz.
III. Andante moderato: De todos os movimentos lentos de Mahler, este talvez seja o mais tocante. Devemos nos remeter diretamente ao movimento lento da Sinfonia anterior, a Quinta, o célebre Adagietto: uma declaração de amor à Alma. Este guarda de similitude a beleza e a entrega das emoções, mas em lugar da manifestação divina de uma realização por vir, temos aqui um chorar tímido e desolado, a certeza de que o amor, uma vez consumado, caminha para algum tipo de fim. Os cincerros reaparecem, trazendo aquele ar dos Alpes e da calma dessa paisagem que Mahler tanto gostava, mas eles parecem sacudir as lembranças de um lugar feliz com certa inquietude, ao invés de confirmar um cenário de calmaria. Mas, se Mahler vivia, ao compor esta obra, uma fase feliz da vida, o que o leva a propor um cenário tão sem esperanças? A resposta só virá no movimento final, indício de que o autor previu, em música, sua derrocada diante da vida. Percebe-se também muitas atmosferas de canção de ninar, e com isso podemos antecipar um dos golpes que aparecerão no finale e que foram definitivos no entristecimento do espírito do autor na fase final de sua vida, a morte de uma de suas filhas, acontecida depois da estréia desta obra, em 1907.
IV. Finale: A imagem do início, de que o herói está indo em direção a uma luta definitiva, tem aqui seu desfecho. Este movimento é a luta. Mas não figurativa e representada descritivamente; imagine aquele momento no qual, em meio à sanguinária batalha, num átimo, toda a vida passa diante dos olhos. É a luta interna. É a aniquilação de seus sonhos. Mahler vê o que passou, mas pior: antevê o que virá. Para a execução da obra, as orquestras precisam produzir um artefato, um instrumento peculiar: um gigantesco martelo. Seu “golpe do destino” deve soar seco, um baque, um corte inescapável. Era premonição: primeiro, a realização profissional: ele foi demitido da Ópera de Viena. Depois Maria, sua filhinha mais velha, então com 4 anos, morre de difteria. E em seguida a certeza da própria finitude: ele descobre um mal cardíaco incurável — e que o levaria da vida em pouco tempo. Especialmente a morte da filha viria a colocá-lo, por defesa, num processo de afastamento emocional que levaria a mulher a um caso extraconjugal. Seu castelo estava desmoronando e nada havia a fazer. Não havia mais saída: ele havia entrado em contato com a Tragédia de seu destino.
ARTISTAS
Orquestra Sinfônica do Estado do Espírito Santo
Helder Trefzger, regente
PROGRAMA
Gustav Mahler
Sinfonia n.º 6, “Trágica”